Outro dia, no aniversário de um amigo, uma convidada estava meio deslocada, assim como eu. Isso mesmo com o aniversariante sendo um grande amigo. Inclusive um daqueles que trazemos desde a infância.

São tantos anos que um dia desses paramos para calcular há quanto tempo nos conhecíamos e ficamos assustados. Eu e este amigo, ambos com 40 anos, nos conhecemos há incríveis 32 anos. A gente se fala desde os 7 anos de idade. Na infância brincávamos com irmãos e primos um do outro. No entanto, mesmo depois de tanto tempo e convívio, ainda havia momentos em que não me encontrava nas festas dele.

Então reparei nessa moça e, num impulso de gentileza, para não a deixar deslocada, fui puxar assunto. Me aproximei e a cumprimentei cordialmente. Sabia o nome dela e ela o meu, mesmo nunca tendo trocado uma palavra anteriormente.

Por convivermos com pessoas em comum, não seria a primeira ocasião em que estaríamos no mesmo ambiente. Esse meu amigo é daqueles muito festivos, que comemora até aniversário de sogra. Então essa moça, amiga de algum parente dele, com frequência estava nessas comemorações.

Ao cumprimentá-la, a primeira frase que sai da boca dela é: "Moço, você mexe com essas coisas de imposto, né?!"

Nesse instante, algo desligou na minha mente e tudo o mais que ela falou dali em diante eu ouvia, mas não escutava. Aquela frase ecoou em mim de um jeito que não conseguia pensar em mais nada.

Depois de quase 15 anos como contador, nunca tinha pensado na forma como enxergam minha profissão. Enquanto ela falava, eu refletia na forma simples daquele ponto de vista, porém equivocada.

Olha o tanto de coisa que a gente faz dentro de um escritório de contabilidade, além de "mexer com imposto". Fazemos folha de pagamento. Abrimos e fechamos empresas. Ajudamos clientes nos seus negócios. Respondemos ao fisco, quando é preciso. Entregamos declarações acessórias e apuramos imposto também.

É tanta coisa que fazemos dentro de um escritório que quase não dá pra fazer a contabilidade. O famoso débito e crédito. Estudamos isso durante anos, porém, ao chegar no mercado de trabalho, somos absorvidos por tantas outras demandas que a atividade central passa a ter função acessória.

Paralelamente aos meus pensamentos, a moça continuava falando não sei o quê.

Também passei por um turbilhão de emoções. Primeiro fui tomado pela raiva, por ser confrontado com uma visão tão limitante daquilo que estudei, para o que me preparei e que faço todos os dias.

Depois fui tomado por um sentimento de compreensão, pois lembrei que somos o reflexo daquilo que vivemos e provavelmente aquela moça nunca teve a oportunidade ou a necessidade de tratar de assuntos contábeis. Às vezes, o que é trivial para nós é algo distante para outros.

Tem pessoas, por exemplo, que tratam contabilidade única e exclusivamente como assunto burocrático. E burocracia normalmente é relegada para um lado esquecido do cérebro.

Voltando à nossa conversa, de repente acordo dos meus pensamentos e me pego olhando para uma pessoa que fala há algum tempo, porém sem saber uma palavra sequer do que havia sido dito.

Nesse momento, surge no meu coração um novo sentimento: aflição, pois, mesmo estando ali com ela fisicamente, eu estava mentalmente envolto no meu fantástico mundo contábil e a voz dela sequer ecoou na minha mente depois daquele "você mexe com essas coisas de imposto".

Ainda em silêncio, dou um leve sorriso, olhando nos olhos dela, na tentativa de disfarçar e enfim prestar atenção no que ela fala. Coincidentemente, no momento em que consigo voltar a escutar a voz dela, a única frase que entendo é: "O que você acha disso?"

Então respiro fundo e falo a primeira coisa que me veio à mente: "Então, complicado isso aí! Tem de olhar direitinho essas coisas."

Ela, meio sem entender a resposta, retruca: "Não, não é complicado. Por que você acha isso?"

Aí minha aflição começa a se expressar pelo meu corpo. Meu rosto começa a queimar de vergonha e me dá um leve frio na barriga que parece que vou peidar.

Sem nenhuma saída, penso em fingir um desmaio, enquanto aquele silêncio entre nós vai ficando ensurdecedor.

E, como se meu anjo quisesse me proteger, recebo um abençoado tapinha no braço. É meu amigo me chamando.

Peço licença e saio do ambiente em que ela está. Agora é o sentimento de alívio que se espalha por todo o meu ser.

E, com o olhar vazio de quem não sabe sequer onde está pisando, novamente me perco em meus pensamentos, agora refletindo se vale a pena ser gentil de novo na vida.

Meu amigo, ainda ao meu lado, me pergunta: "Conrado, você pode ajudar minha tia?"

Mais um silêncio ecoa naquele dia.

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