Chefe, tem um minuto?
Todas as manhãs, no caminho do escritório, eu já vou organizando mentalmente tudo que desejo fazer ao longo do dia.
Vou responder o e-mail do cliente até as 10h, antes daquela reunião; às 11h30 eu já sento com o pessoal do fiscal e vejo se entregaram todos os SPEDs; depois do almoço, às 13 horas, eu já bato aquele papo com o fulano, que está tendo dificuldade no contábil.
E assim vai até o fim do dia.
Tudo milimetricamente cronometrado para atender todo mundo, entregar o que precisa e fazer valer o honorário que me pagam todo dia 15.
Dependendo, eu já organizo até o pós-expediente: fazer uma janta pra namorada; conversar e saber como foi o dia dela; ver mais um capítulo daquela série que estamos vendo juntos; e, se ela animar, dormir um pouco mais tarde.
Não entro no escritório sem ter definido meu cronograma. Às vezes até enrolo um pouco mais no carro para concluir essa tarefa mental.
Vivo tentando colocar essa organização no papel. Tem dia que consigo e tem dia que não consigo.
Porém, acho arriscado deixar registrada uma rotina com tantos detalhes. Uma vez, uma pessoa meio enxerida olhou a anotação "dormir mais tarde" e me perguntou o que seria aquilo.
Ainda não sei dizer se o errado fui eu, por ter deixado meu caderno com ela, ou se ela realmente ultrapassou alguns limites. No entanto, para evitar o constrangimento, preferi deixar pra lá.
Enfim, após toda essa organização, entro no escritório, cumprimento o pessoal e vou pra minha mesa com sangue no olho para responder aquele e-mail.
Chega a se transfigurar no rosto o foco naquelas entregas. O olhar compenetrado no computador, a testa franzida. Sendo bem honesto, estou com o semblante mal-humorado.
Percebo isso pelo medo e pelo cuidado que a pessoa que vem na minha direção tem.
Ela para ao lado da minha mesa e, com a voz insegura, pergunta: "Chefe, tem um minuto?"
Agora o mau humor não está só no rosto, já passou pro coração. Porque, enquanto busco entender a solução daquele e-mail, começando a digitar as primeiras linhas, passando pro papel o raciocínio que criei, sou interrompido por aquela frase.
Finjo que não escutei e ela, mais sem jeito ainda, insiste e fala que tem um problema que não consegue resolver sozinha.
Neste momento, engulo meu raciocínio, engulo meu mau humor, olho para ela, abro um leve sorriso e pergunto: "Manda, como posso te ajudar?"
Ela já devolve o sorriso, coloca o computador do meu lado e começa a mostrar o problema. Vejo que não é coisa de um minuto, como ela pediu, e, enquanto continua falando, fico pensando em pedir para ela voltar depois. Até que ela me pergunta: "O que o senhor acha?"
E dali pra frente, lá se vai a minha próxima hora e meia. Mostrando, discutindo, acertando, orientando, até chegarmos num resultado. Não paramos até achar uma solução razoável. Isso, inclusive, me fez atrasar para a reunião das 10; a sorte é que era on-line.
Esse é outro compromisso que ultrapassa o planejado. Esperava que acabasse às 11h, estourando 11h30. E não sei como aquilo foi acabar só às 13h.
Então, enquanto engulo meu almoço, pelo menos para aliviar a tensão, mando um áudio pro ChatGPT, para que ele possa organizar melhor minhas ideias sobre aquele e-mail que ainda nem respondi.
Termino de comer o mais rápido que posso, volto correndo tentando fazer tudo que planejei pela manhã e ainda não tinha conseguido.
Quando sento na mesa e começo a digitar o e-mail, de repente escuto do outro lado da sala alguém gritando pra mim: "Chefe, tem um minuto?"
O demônio que habita em mim pensa em xingar aquele "fi duma ronquifuça" que não pode nem levantar da cadeira pra falar comigo. Porém, num toque de suavidade e leveza do anjo que também está aqui, acabo refletindo e concluo: calma, amigo, isso é fruto do que você sempre desejou. As pessoas te têm como referência e você emprega e gera renda para diversas famílias.
E com um cinismo que só eu sei que tenho, respondo para ele gritando também do lado de cá: "Fala, meu querido! Me dá um minuto que já te atendo, deixa eu só resolver uma coisa aqui."
Pego o celular e mando mensagem para minha namorada: "Princesa, vou atrasar hoje!"
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