Todas as manhãs algo milimetricamente sincronizado acontece num escritório: encher a xícara com café, sentar calmamente frente ao computador e dar o primeiro gole.

No começo eu pensava que era algum ritual dos contadores ocultos. Depois percebi que não. Nunca me convidaram pra seita nenhuma e eu fazia a mesma coisa todos os dias.

A única diferença que percebo dos praticantes dessa tradição é a dose. Enquanto uns colocam um dedinho de café, apenas pra sentir o aroma da bebida sagrada, outros já enchem o copo de tal forma que me pergunto se é café ou Coca-Cola.

Sempre me pego pensando se dá tempo de beber tudo, enquanto ainda está quente. Instantaneamente já me sobe a indignação do possível desperdício. Café quente é adorável, frio é intragável. É impressionante como muda tão rápido de qualidade, só pela temperatura. E não adianta requentar, não volta a ser bom.

Um exímio praticante do ritual me explicou esses dias pra trás:

“O café oxida, Conrado, por isso fica amargo.”

Com a dúvida no coração da capacidade dos outros de beber café, vou pra minha mesa praticar meu ritual e começar o dia.

Na sequência, abro os e-mails e vejo a solicitação de um cliente. Percebo que merece atenção, levanto e vou no analista fiscal e alinhamos uma resposta.

Voltando pra sala, o cara do departamento pessoal me para pra discutirmos outra demanda. Pesquisamos, consultamos a lei e debatemos até chegar numa solução adequada.

Enfim, consigo voltar pro meu lugar e continuo lendo os e-mails. Quando olho pro lado e penso:

Ixi, meu café!

Já era, esfriou.

Ainda bem que não impliquei com ninguém. Porque café frio no copo dos outros é refresco.

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